/FIIK Janela Caipira

MANIFESTO ”CAIPIRAS FUTURISTAS”

Como é ver e ouvir o mundo no modo caipira? É uma condição temporal, espacial, cultural? Como soa ser chamado de caipira, matuto? Identificação, afastamento ou as duas coisas? Na etimologia tupi: cai = queimada / pir = pele… pele queimada. Caá = mato + pora = habitante… morador do mato. Híbrido de Caipora e Curupira?Seres embrenhados nas matas? Simbioses de florestas e gentes?

Uma condição histórica e geográfica. Massa miscigenada, inicialmente, nas ofensivas portuguesas matas adentro. Tensões. Etnocídio. Genocídio. O caipira é o que fica. A casa de sapé com a ferramenta de ferro na porta. Cultura híbrida indígena/europeia. A diáspora africana durante o processo de escravização traz novos saberes, novas cores e novas tensões. A casa de sapé, com a ferramenta de ferro, e a força do tambor.

Trilhas, que viram estradas, que viram ferrovias. Trilhos, petróleo, asfalto, rodovias. O fim da escravização expulsa os corpos com peles escuras para trazer os de peles claras. Mais europeus, e também asiáticos. Mais culturas se misturando. No tempo, se vai mais um século. No espaço, o território ocidental expande e se consolida. Cruza o que batizaram de “Brasil”. Desmatamento, exploração. Monocultura. Cosmofobia. Epistemicídio. Selvagem como pejorativo. Caipira como obstáculo. A arte faz sua parte, ridiculariza o bicho do mato. Esvazia o sentido, produz a vergonha, constrange. O peso de ser atrasado, matuto. Colorismo. Agronegócio.

A cidade absorve o que quer, descarta o que não quer. Seres embrenhados nos carros. Híbridos de poluição e gentes. Rios desaparecem. Esquinas populosas, fome. É uma condição temporal, espacial, cultural? Marca 45 graus no centro da cidade. Na periferia, a sensação térmica passa de 60 graus. No outdoor, uma paisagem de floresta em um painel de led. No cinema, na TV e no celular, tudo parece bom, um belo design para consumir. Não tão longe, os tratores empurram pessoas, derrubam casas, jogam venenos e cavam crateras. Para eles, o caipira é o passado e a devastação é o presente. E o futuro? Normatização apocalíptica.

O ferro destruiu a casa de sapé, rompeu o couro do tambor. Sentidos condicionados, domados. Colonização dos imaginários, dos afetos, das potências. Audição, visão, olfato, tato, paladar… natureza morta. Metaversos de metaversos. Inteligência artificial, seleção natural. O limite! O ponto de não retorno… ecocídio!

Em meio à fumaça, dentro de um carro de ferro, tem um maracá, acelerador de partículas, chamador de espíritos. Passa uma criança com um celular na mão, filmando. Outras formas, outras imagens, desterritórios. Os tambores movem multidões. Em uma festa junina funk, um jovem usa um chapéu de palha com led. Na prainha do rio, montam um sound system. Identidades híbridas. Uma criança com Síndrome de Down rompe a ordem escolar com sua dança. Potências outras. Uma indígena com uma câmera na mão. Desfoques. Uma comunidade criando narrativas audiovisuais em um assentamento. Quilombolas conectados em luta transcendem os tempos e espaços. Híbridos rurais e digitais. A cidade não é o centro. Não há centro! Corpos dissidentes ocupando telas, subjetividades, outros imaginários, potências. Seriam os caipiras futuristas?

Matuto…

Será que era um filme? Ou será que era um sonho? O que é sonho dentro de um pesadelo? Outras formas de sentir? Outras formas de ouvir, de ver, de cheirar, de tocar, de comer, de dançar, de pedalar, de beijar, de amar, de gritar, de lutar e   … ? Narrativas sensoriais! Nas bordas das cidades, os tambores acolhem, alegram. Motos, cavalos, galinhas, porcos, cachorros, sons de carro, cadeiras de roda, tatuagens, cabelos na régua, zapzap, sertanejos, divas pop, mc’s, camisas de time… sonhos! Na beira do rio urbano, uma casa de sapé. Com a pele queimada, o morador do mato. Cidades embrenhadas nas matas. Simbioses de urbano e rural. Colorido. Agrofloresta.

Matuto!

Quem queima a palma benta nos dias de temporal? Quem segura o céu e impede que caia?

Buscando saberes em futuros ancestrais, conhecendo ferramentas contemporâneas disponíveis, compondo virtualidades expandidas. Comunidades cinematográficas se formando em espaços de resistência. O cinema como janela para novas formas de sentir e estar no mundo, ocupando imaginários e desenhando caminhos. A janela como lugar de matutação, estado do pensar, de sentir tempos e imaginar espaços. Filmes, oralidades, arte sonora, fotografias sobrepostas, cenografias, experimentos, gestos coletivos de criação, acessibilidades, hibridismos, materialidades, encontros, subjetividades, linguagens que desviam. A arte faz sua parte, habita o entre.

Que mundos possíveis emergem em uma janela caipira de cinema?




Manifesto escrito por Rogério Borges, inspirado nos pensamentos de Ailton Krenak, Davi Kopenawa Yanomami, Doreen Massey, Eduardo Viveiros de Castro, Geni Nuñez, Nego Bispo, Sueli Carneiro, Suely Rolnik…